quinta-feira, setembro 29, 2005

bom gosto às colheradas


Bom gosto em excesso é enjoativo, e quase tão constrangedor quanto absoluta falta de. Pessoas impecáveis na sua torre de cd's me parecem aquelas crianças gordotas e sem modos, que descobrem uma lata de leite condensado no armário e comem tudo de uma sentada. Alguns filisteus, quando descobrem o bom gosto, também são assim: lambuzam a cara e saem para a rua, mostrando que agora eles são iguais a gente grande.

Claro, não é que eu seja contra o bom gosto. Muito godardzinho nutrir eterno desprezo pelo que é agradável. Mas alguns seres são tão irretocáveis, tão perfeitinhos nas suas predileções, que sempre me parecem errar na quantidade de leite condensado que consomem. Eles falam entusiasticamente de bossa nova, e átomos de glicose invadem a minha boca, arranhando as paredes da garganta e arrepiando meus pelinhos do baixo-ventre.

Além disso, desconfio da falta de erros desta gente. É como em religião: só se chega a um sentimento cristão profundo depois de muitos percalços. E tão fácil quanto cristianismo de fachada é adquirir o kit "be cool" Hugo Boss-loft-trompetinho. Estou agora mesmo olhando os meus cd's, e - Deus! - quantos erros nestes 24 anos de vida! "Let There Be Rock", do AC/DC; ao menos dois álbuns do U2; trilha sonora de filme da Tina Turner, e quatro, QUATRO discos de rock nacional. De fato, aprender a ter gosto é mais ou menos como ascese religiosa, e o caminho que leva até "Station to Station" é tortuoso, irmãos. Eu mesmo me sinto agora como Santo Agostinho, já católico, lembrando-se com vergonha da época em que foi pagão e maniqueu.

Enfim, quem não é capaz de um pouco de mau gosto também não é capaz do verdadeiro bom. Mas vos poupo de mais um aforismo. Acabo de cair em tentação; vou passar a tarde comendo Trakinas e assistindo ao dvd dos "Incríveis", edição de colecionador.

terça-feira, setembro 27, 2005

0900 disk-hollow-man



"Um monarquista em política, um classicista em arte e uma louca entre quatro paredes." (T. S. Eliot, em estranho sincretismo.)

domingo, setembro 25, 2005

"the river-merchant's wife", ezra pound


The River-Merchant's Wife: A Letter


While my hair was still cut straight across my forehead
I played about the front gate, pulling flowers.
You came by on bamboo stilts, playing horse,
You walked about my seat, playing with blue plums.
And we went on living in the village of Chokan:
Two small people, without dislike or suspicion.

At fourteen I married My Lord you.
I never laughed, being bashful.
Lowering my head, I looked at the wall.
Called to, a thousand times, I never looked back.

At fifteen I stopped scowling,
I desired my dust to be mingled with yours
Forever and forever and forever.
Why should I climb the lookout?

At sixteen you departed,
You went into far Ku-to-en, by the river of swirling eddies,
And you have been gone five months.
The monkeys make sorrowful noise overhead.

You dragged your feet when you went out.
By the gate now, the moss is grown, the different mosses,
Too deep to clear them away!
The leaves fall early this autumn, in wind.
The paired butterflies are already yellow with August
Over the grass in the West garden;
They hurt me. I grow older.
If you are coming down through the narrows of the river Kiang,
Please let me know beforehand,
And I will come out to meet you
As far as Cho-fo-Sa.


By Rihaku

(Esta preciosidade está em Cathay, livro em que Pound faz paráfrases de poetas chineses tradicionais. Excelente para conhecer o Ezra Pound pré-Cantos. E muito, muito bonito: sempre tremo o beiçinho, numa careta de emoção contida, ao ler o verso "Two small people, without dislike or suspicion". Só "Where Did Our Love Go?", das Supremes, consegue mais.)

sexta-feira, setembro 23, 2005

porque a academia é feita de idéias e modas



IN:

-indefinibilidade;
-estudos culturais;
-pele sintética;
-Galliano (ou Wittgenstein, com poucos acessórios.)


Novas tendências da esquizoanálise (primavera-verão 2005).

OUT:

-estruturalismo;
-Vive la Fête;
-Skinner ("behaviorismo caiu junto com o revival da moda disco, no meio dos nineties", by Cristina Franco);
-pentados B-52's.


Ah, esses behaviouristas.

quarta-feira, setembro 21, 2005

la rochefoucauld on love (II)


Mais máximas de La Rochefoucauld sobre o amor. Vou insistir até que vocês aprendam.

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Existe no ciúme mais amor-próprio do que amor.

(Il y a dans la jalousie plus d'amour-propre que d'amour.)

Se alguém acredita amar a sua amante por amor a ela mesma, está bem enganado.

(Si on croit aimer sa maîtresse pour l'amour d'elle, on est bien trompé.)

Enquanto se ama, se perdoa.


(On pardonne tanto que l'on aime.)

O ciúme sempre nasce com o amor, mas nem sempre morre com ele.

(La jalousie naît toujours avec l'amour, mais elle ne meurt pas toujours avec lui.)

É mais difícil sermos fiéis à nossa amante quando estamos felizes do que quando somos mal-tratados.


(Il est plus difficile d'être fidèle à sa maîtresse quand on est heureux que quand on est maltraité.)

No amor, a traição quase sempre vai mais longe que a desconfiança.

(Dans l'amour la tromperie va presque toujours plus loin que la méfiance.)

Há um certo tipo de amor cujo excesso impede o ciúme.

(Il y a une certaine sorte d'amour dont l'excès empêche la jalousie.)

Quem ama duvida com freqüência daquele em quem mais crê.

(Quand on aime, on doute souvent de ce qu'on croit le plus.)

Um cavalheiro pode se apaixonar como um louco, mas nunca como um bobo.

(Un honnête homme peut être amoureux comme un fou, mais non pas comme un sot.)

As infidelidades deveriam acabar com o amor, e o bom seria não termos ciúme quando temos motivos para tanto. Somente quem evita causar ciúme é digno do mesmo.

(Les infidélités devraient éteindre l'amour, et il ne faudrait point être jaloux quand on a sujet de l'être. Il n'y a que les personnes qui évitent de donner de la jalousie qui soient dignes qu'on en ait pour elles.)

A maioria das mulheres chora a morte de seus amamtes não tanto por tê-los amado, mas por parecerem mais dignas de o serem.

(La plupart des femmes ne pleurent pas tant la mort de leurs amants pour les avoir aimés, que pour paraître plus dignes d'être aimées.)

Os esforços que fazemos para impedir o amor são muitas vezes mais cruéis que a frieza de quem amamos.


(Les violences qu'on se fait pour s'empêcher d'aimer sont souvent plus cruelles que les rigueurs de ce qu'on aime.)

É quase sempre culpa do amante não perceber que se deixou de amá-lo.

(C'est presque toujours la de celui qui aime de ne pas connaître quand on cesse de l'aimer.)

Quem ama muito é quase tão difícil de satisfazer quanto quem já não ama tanto.

(On est presque également difficile à contenter quand on a beaucoup d'amour et quand on n'en a plus guère.)

Às vezes, somos menos infelizes sendo enganados por quem amamos do que sendo desenganados.

(On est quelquefois moins malheureux d'être trompés par ce qu'on aime, que d'en être détrompé.)

Ficamos um bom tempo com nosso primeiro amante, quando não achamos um segundo.

(On garde longtemps son premier amant, quand on n'en prend de second.)

Os esforços que fazemos para continuarmos fiéis a quem amamos não valem muito mais do que uma infidelidade.


(La violence qu'on se fait pour demeurer fidèle à ce qu'on aime ne vaut guère mieux qu'une infidélité.)

O perigo mais ridículo aos velhos que já foram capazes de suscitar paixões, é esquecerem o fato de não mais o serem.

(Le plus dangereux ridicule des vielles personnes qui ont été aimables, c'est d'oublier qu'elles ne le sont plus.)

segunda-feira, setembro 19, 2005

explicação para o post anterior


(Não foi culpa minha. Juro que não. Estava aqui conectado, suçando um sacolé de uva e vendo fotos de housewives anos 50, quando dois blogueiros encapuzados deram com o pé na porta do meu quarto e me colocaram uma espingarda de espoleta na cabeça. Exigiam que eu fizesse ao menos um post sobre desastres naturais, ou sobre políticos corruptos, ou sobre presidentes de superpotências, coisas do gênero. Tentei resistir o quanto pude. E, enquanto o blogger carregava, forçei uma negociação. Consegui reduzir o post que eles queriam a algumas fotos, isso em troca de um sacolé de tamarindo. Muito embaraçoso.

Mas agora, de volta ao normal. E para me redimir juro que vou escrever uns três posts sobre o T-Rex. E postar mais fotos do Fred Astaire, e mais piadinhas sobre poetas tropicalientes, e mais... - Ôpa, o que é isso? Não, calma aí! São eles de novo! Misericórdia! Misericór...!)















quinta-feira, setembro 15, 2005

a festa dos high-brows malemolentes


Byron: eu tive um sonho, que não foi de todo um sonho, tchá-ná-ná.

Sonhei que um Boi de Parentins tinha feito versões cheias de calor humano para canções de Cole Porter. E que nos shows, em "I get a Kick ouy of you", depois do refrão

I get a kick though it's clear to me
You obviously
Don't adore me,

vinha um coro de metais, e um cantor zarolho continuava: "mas não dá nada não, galera; tira o pé do chão", e tudo acabava em muito gingado, e muita malemolência, e muita energia postiva.

O que tudo isso quer dizer:

a) que madame sosotris, famous clairvoyante, had a bad cold;
b) que Cole Porter vai voltar neguinha;
c) "bate neu não, misifird!".

O vencedor ganha o cd "Abre a rodinha: Sara Jane canta Noel Coward".

alguns odiozinhos para guardar no lado esquerdo do peito, dentro do coração

- pessoas que fazem piadinhas espertinhas com política; pessoas que mostram indignação com política; mulheres que mostram familiaridade indignadinha com política:"Tem que cassar; tem que cassar!", enquanto passam pó na cara. Pessoas que usam diminutivo para falar de política.
-pessoas que fazem ironia com um "entre aspas". Pessoas que trocam "entre aspas" por "entre parênteses" ao tentar fazer ironia (geralmente política). O esquerdóide explicando o golpe de 64: "Porque aí os milico fizeram o que eles chamaram de - entre parênteses - uma democracia restrita (e flexiona os dedinhos duas vezes, e levanta o nariz numa pose de eterno desprezo pelo General Castelo Branco)." Pessoas que falam da ditadura.
- pessoas que falam "festa rave". Pessoas que chamam qualquer festa com Corona e luz estroboscópica de "festa rave". Pessoas que falam em "música rave", Holly Christ. Porque uma vez, na minha fase dj de hard-techno (sim, isso existiu), ouvi de uma criatura enjoadinha: "Bah, eu adoro música rave..." Mais um filho da geração "Festa Rave - o filme", lembram?

"Festa Rave - o filme."

quarta-feira, setembro 14, 2005

um povo, um grito, uma causa:



"Porra, agora o Orkut vai ser pago!"

segunda-feira, setembro 12, 2005

la rochefoucauld on love (I)



Terrorismo emocional: as máximas de La Rochefoucauld sobre o amor. Ásperas, mas engraçadas; La Rochefoucauld sabia ser cético sem ser reclamão. Espero postar todas em uma série de três posts, traduções minhas. Oh, não, não, don't shoot the piano player. Se bem que colocar o original francês junto à tradução é tocar "Tema de Lara" de costas para a platéia, com um alvo desenhado na casaca.

Para saber mais sobre La Rochefoucauld, clicar no título.


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A duração das nossas paixões não depende mais de nós que a duração da nossa vida.

(La durée de nos passions ne dépend pas plus de nous que la durée de notre vie.)

O ciúme se alimenta das dúvidas, e ele vira furor, ou ele acaba, logo que se passa da dúvida à certeza.

(La jalousie se nourrit dans les doutes, et elle devient fureur, ou elle finit, sitôt qu'on passe du doute à la certitude.)

Se existe um amor puro e isento de mistura com nossas outras paixões, só pode ser aquele que está no fundo do coração, e que nós mesmos ignoramos.

(S'il y a un amour pur et exempt du mélange de nos autres passions, c'est celui qui est caché au fond du coeur et que nous ignorons nous-mêmes.)

Não há disfarce que por muito tempo esconda o amor onde ele está, ou que o finja onde ele não existe.

(Il n'y a point de déguisement qui puisse longtemps cacher l'amour où il est, ni le feindre où il n'est pas.)

No amor, cura-se melhor quem se cura primeiro.

(En amour, celui qui est guéri le premier est toujours le mieux guéri.)

Se nós julgamos o amor pela maior parte dos seus efeitos, ele se parece mais com o ódio que com a amizade.

(Si on juge de l'amour par la plupart de ses effets, il ressemble plus à la haine qu'à l'amitié.)

Só existe um tipo de amor, mas existem mil cópias diferentes.

(Il n'y a que d'une sorte d'amour, mais il y en a mille différentes copies.)

O amor, assim como o fogo, não pode subsistir sem um movimento contínuo, e ele deixa de viver logo que deixa de esperar ou de temer.

(L'amour aussi bien que le feu ne peut subsister sans un mouvement continuel; et il cesse de vivre dès qu'il cesse d'espérer ou de craindre.)

O verdadeiro amor é como a aparição de fantasmas: todo mundo fala, mas pouca gente viu.

(Il est du véritable amour comme de l'apparition des esprits: tout le monde en parle, mais peu de gens en ont vu.)

Quanto mais nós amamos uma mulher, mais perto estamos de odiá-la.

(Plus on aime une maîtresse, et plus on est près de la haïr.)

Existem bons casamentos, mas não existem deliciosos.

(Il y a de bons mariages, mais il n'y en a point de délicieux.)

Há quem nunca se apaixonaria, se não tivesse ouvido falar no amor.

(Il y a des gens qui n'auraient jamais été amoureux s'ils n'avaient jamais entendu parler de l'amour.)

O prazer do amor é amar, e nós ficamos mais felizes pela paixão que sentimos do que pela paixão que provocamos.

(Le plaisir de l'amour est d'aimer, et l'on est plus heureux par la passion que l'on a que par la passion que l'on donne.)

Existem dois tipos de constância no amor: uma que vem de nós acharmos o tempo todo novas coisas para amar na pessoa que amamos, e outra que vem do nosso orgulho em sermos constantes.

(Il y a deux sortes de constance en amour: l'une vient de ce que l'on trouve sans cesse dans la personne que l'on aime de nouveaux sujets d'aimer, et l'autre de ce que l'on se fait un honneur d'être constant.)

Não há paixão em que o amor de si mesmo reine tão soberano quanto o amor, e nós estamos sempre mais dispostos a sacrificar o descanso do que amamos do que a perder o nosso.

(Il n'y a point de passion où l'amour de soi-même règne si puissament que dans l'amour; et on est toujours plus disposé à sacrifier le repos de ce que l'on aime qu'à perdre le sien.)

A graça da novidade é para o amor o que a flor é sobre os frutos; ela lhe dá um lustro que se apaga facilmente, e que não retorna mais.

(La grâce de la nouveauté est à l'amour ce que la fleur est sur les fruits; elle y donne un lustre qui s'efface aisément, et qui ne revient jamais.)

A ausência diminui as paixões medíocres e aumenta as grandes como o vento apaga as velas e acende o fogo.

(L'absence dimiue les médiocres passions, et augmente les grandes, comme le vent éteint les bougies et allume le feu.)

É impossível amar pela segunda vez o que nós realmente deixamos de amar.

(Il est impossible d'aimer une seconde fois ce qu'on a véritablement cessé d'aimer.)

O que faz com que os amantes não enjoem de estarem juntos é que eles falam de si mesmos o tempo todo.

(Ce qui fait que les amants et les maîtresses ne s'ennuient pas d'être ensemble, c'est qu'ils parlent toujours d'eux-mêmes.)

sábado, setembro 10, 2005

os romanos, aqueles flintstones do século II


Os romanos tinham técnicas desenvolvidíssimas de ginástica. Havia pixações nos muros de Pompéia. E nos estádios em que havia corridas de biga, as torcidas rivais se digladiavam, e a PM aparecia com meia hora de atraso para dispersar a multidão à base de dobermans e "bombas de efeito moral" - este tipo peculair de artefato, que explode lançando ao ar sentenças de La Bruyère.

Tudo isso me parece familiar; entediantemente familar, às vezes. Como se a Roma Antiga fosse uma tradução do nosso mundo para uma cenário de filme 50's, com todo mundo pegando o metrô de toga e Heliogabalo pintando os olhos com delinador da L'Oréal. Flintstones; é isso: tenho a impressão de estar vendo um episódio dos Flintstones no século II. Porque devia ter luz estroboscópcia nos bacanais, claro que sim, e as matronas housewives da época deviam ter microondas. Com colunata dórica e frontão clássico, mas microondas.

quarta-feira, setembro 07, 2005

anabela e sua estufa dos prazeres, ou a insondável questão ética da clonagem


Rodaram a manhã inteira. Três bairros vistos, revistos, revirados, e nada. Praticamente nenhum imóvel com mais de três dormitórios; quando muito, quatro. A única casa com anúncio de cinco quartos era horrível, tinha mau hálito e infiltração; além disso, o quinto quarto só podia ser a gaiola de hamster guardada na área de serviço. “Inferno de classe média que não faz filho. É no que dá falta de religião.” O corretor tinha súbitos acessos de religiosidade ortodoxa quando uma comissão ameaçava não sair.

Pouco depois do meio-dia, ele deixou a cliente em casa. Não entendia por que uma professora de espanhol – “chileno”, ela levantava o dedo, “espanhol chileno, que é o espanhol mais puro da América Latina” – pobre, sozinha, com mais de 50 anos e pouco potencial para satisfazer os mais tolerantes padrões de beleza feminina, poderia querer uma casa maior que aquela. Casar, filhos? Improvável. Lembrou-se então dos três porões lacrados que ela não deixou abrir. E passou a suspeitar de ações levemente mais criminosas que a maternidade: prostituição, clínica de aborto, tráfico de anões. E ainda aquela estufa no fundo do terreno, que ela não tinha nem mencionado.

- A senhora me deixa ver a casa de novo? Sabe como é, tem peças em que eu não entrei, e é sempre bom conferir antes de pôr o anúncio...

- Não, hoje não. – Anabela parecia sem jeito – Eu tenho visita às duas. Quem sabe amanhã.

Era mentira. Anabela era uma das poucas pessoas enfadonhas que mentia com perfeição.

O corretor assentiu, acelerou o carro, e ela entrou em casa.

A sala estava em ordem. A cozinha também. Desde que tinha lacrado os porões, latas de marmelada não eram mais chafurdados na geladeira, e vestígios de macarrão ao sugo deixaram de aparecer esmagados contra a tela da tevê. Sorriu, satisfeita de si: “Hay que endurecer, pero...”. Foi o seu mot-d’esprit da semana.

Depois do banho quente e do almoço um pouco menos, Anabela se deitou. Mas dormiu mal; só conseguia pensar numa casa maior – e em mais conforto para “os seus guapos”. Então se levantou de um salto: “Vou ver como eles estão.” E calçou suas pantufas encardidas, decoradas com carinhas sorridentes de Isabel Allende.

Foi até o pátio e abriu o primeiro porão. Uma luz poeirenta entrou na peça escura, e doze ou treze vultos humanos de formas altamente desejáveis se voltaram para ela. Eram os seus Jude Laws. Sem nome, sem roupa e com os cabelos desarrumados, estavam em beliches triplos, arranhando móveis com as unhas compridas e jogando tênis com o conteúdo dos seus penicos de areia. Ao verem Anabela, pararam. E então duas dúzias de olhinhos azuis brilharam no escuro, largaram suas brincadeiras vikings e, balbuciando o nome dela, arremessaram-se no seu colo. Anabela não sabia o que fazer. Os Jude Laws tentavam sair do porão, agarravam-se ao seu saião de cambraia, ao seu cordão de Nossa Senhora das Dores, e ela teve de domá-los a vassouradas. Quando finalmente se acalmaram: “Hoje vocês vão dormir sem beijo da mamãe. Estão muito mal-educados. Talvez depois do jantar, e só no caso de se comportarem.” Gritos de angústia foram a única resposta, e ela só conseguiu abrir a porta novamente para atirar um saco de ração Whiskas. “Ah, é assim? Então sem beijo antes de dormir.” E os gritos se transformaram num choro pegajoso, de criança contrariada. Sem saber, Anabela corria o risco de inspirar uma nova “A la Recherche du temps perdu”, quem sabe em espanhol (chileno).

Seguiu então para o segundo porão. Era o dos Marcelos Mastroiannis. Esses já eram um pouco mais velhos. Quer dizer, eram todos Marcellos Mastroiannis adultos, assim como os Jude Laws eram Jude Laws adultos, mas ao invés de estragaram os móveis ou emporcalharem o quarto com penicos virados, já tinham curiosidadezinhas sexuais e organizavam reuniões dançantes ao som de Pepino di Capri. O tempo todo. À noite, Anabela tinha sérios problemas para dormir. Era obrigada a ouvir até a exaustão sucessos de vendas como “Sapore di Roma” ou “As Melhores Canções Italianas Para Cruzeiros”. E pior: os Mastroiannis já tinham espinhas e começavam a se rebelar. Neste dia mesmo, quando Anabela abriu a porta e pediu para eles arrumarem os beliches, a única resposta que obteve foram charmosos xingamentos em italiano. Ela adorava italiano, o que talvez explique a sua reação tão delicada: “Porcos! Mal-agradecidos! Só agüento vocês ainda por causa da ‘Doce Vida’!”. E atirou para eles outro saco de Whiskas.

Mas era no terceiro porão que estava o seu tesouro. À medida que dele se aproximava, o cheiro de laquê ficava mais e mais intenso nas suas narinas. Canções de Luiz Miguel se faziam distinguir melancolicamente no quintal. E ao abrir a porta, uma onda de espanhol chileno invadiu seus ouvidos sedentos de beleza, e um raio de luz divina iluminou as suas calçinhas no varal.

Eram seus Carlos Miguéis Yturris. 25 deles. Afinal, tratava-se de seu ídolo de infância. A mais remota lembrança que tinha era a de uma tarde na casa da avó. Ela, com a boca cheia de pipoca doce e guaraná, assistia a uma elegante novela chilena; canções de amor profano intrigavam sua imaginação ainda virgem, e do nada surge o design obsceno do bigode do galã. Coup de foudre. Ela se apaixonou imediatamente por Carlos Miguel Yturri – e por essa peculiar variação do espanhol latino-americano. E agora, com o verdadeiro Yturri morto de gastrite há uns cinco anos, Anabela considerava a possibilidade de enviar um de seus clones ao Chile, para um remake de “Coração Ferido”, grande sucesso na década de 70.

Encantada sempre que os via, Anabela ficou parada na porta. Admirava sua obra máxima. Então, um deles fez sinal para que sentasse. “Precisamos conversar”, disse um segundo Yturri, pegando o saco de Whiskas “Tenho algo de importante a te dizer.” E Anabela suspirou de tédio por antecipação. Tinham bigodes másculos, topetes sólidos, ternos rosa-bebê impecáveis, mas tinham também este je ne sais quoi de melodramaticamente repetitivo. Ela fez menção de se levantar. Um terceiro a conteve:

- Não, não fuja. Já era hora de você saber. Eu não sou seu...

- Pai, completou Anabela. E vendo a decepção do outro: “Claro; semana passada você não era meu irmão; na retrasada, meu tio; na outra, não era realmente meu marido. Já foram todas as possibilidades, meu caro.” Um quarto tentou ainda:

- Eu não te amo mais.

- Nem eu.

Outra decepção evidente.

E então os outros 22 Yturris a cercaram, todos desesperados, querendo revelar verdades irreveláveis sobre o passado, a família, a suposta relação conjugal de ambos: “Na verdade, você é minha tia...”; “Eu comi a empregada”; “Proletários do mundo,...”. E ela tentando escapar, e braços a segurando, e rostos chegando ameaçadoramente perto do seu. Anabela só conseguiu sair do porão 40 minutos depois, com a cabeça tonta e as roupas esfarrapadas de quem ouviu verdades irreveláveis demais para uma só vez. Mas o que fazer? Aquele era um dos seus pequenos exercícios de felicidade: sentir-se cobiçada como uma Topazio, uma Maria do Bairro tinham sido. Voltou para casa com fome; com fome e satisfeita.

Mas antes de chegar em casa, passou ainda pela estufa e espiou por uma fresta lá para dentro. Era ali que morava a sua felicidade de cinqüentona. De onde estava, podia ver aquelas preciosidades, aqueles umbiguinhos surrupiados de fãs-clubes femininos, tão pequenos, tão práticos, tão fáceis de preparar. Era só tirar uma raspinha, misturar com leite, dar uma mexida e, feito: um Rodolpho Valentino prontinho, em idade adulta. Sentiu uma irreprimível vontade de fazer outro Yturri, mas se conteve e fechou a porta. Clones não eram Nescau.

No caminho, lhe veio à cabeça algo de urgente. Correu ao telefone. Tinha se lembrado dos umbigos do Montgomery Clift, do Paul Newmann, do Robert Redford, todos guardados ali na estufa.

- Alô, é o Sr. Correia? Aqui é a Anabela; o senhor esteve comigo hoje pela manhã. Escuta, sabe aquela história da casa? Pois bem, é que eu mudei de idéia quanto ao número de quartos. – Ouviu-se um suspiro de alívio do outro lado – Tem que ser oito, não cinco dormitórios. – Não se ouviu suspiro algum do outro lado. E então ela lembrou também do umbigo de Yturri, que ainda renderia mais uns clones – Opa, não: nove.

sábado, setembro 03, 2005

o pensamento vivo de rodrigo de lemos


Um sujeito que na hora do sexo pense na composição química do sêmem, ou na função biológica do orgasmo na teoria darwiniana, brocha. É fatal.

Daí que o filisteísmo é a brochice do espírito. Um filisteu lendo a Ilíada só consegue se indignar com a arrogância de Aquiles; um filisteu no Vaticano só consegue se impressionar com a "quantidade de ouro que roubaram das Américas para construir isso aqui"; um filisteu beijando Monica Belucci só consegue pensar na estrutura opressora da indústria cinematográfica. E depois, na cama com Monica Belucci, ele só pensaria na composição química do sêmem. E na função biológica do orgasmo na teoria darwiniana. Com as conseqüências já conhecidas.

*

Gente brega não sai de moda. Até porque nunca entrou.

*

Existe alguma coisa que não me convence em witticism de internet. Talvez sejam as carinhas que as pessoas fazem com pontuação. Se La Rochefoucauld tivesse um blog, estaria escrevendo: "Não existem mulheres honestas que não estejam cansadas do seu métier :o)"


;-)